minha primeira crônica...

Tudo porque eu havia postergado 
                                                                        De: BJ

Em uma nublada tarde de 15 de novembro, estava eu sentado em um banco de cimento cheio de estampas de vereadores da cidade de Sorocaba, como Fausto Perez, Vitão do Cachorrão etc... Estava em época de eleição. Chovia. Com a cabeça para cima, olhava o céu, sem me importar com as gotas gélidas de água que sobre mim caiam e me molhavam dos pés à cabeça. Poderia pegar um resfriado, pensei, mas isso não me importava nem um pouco. Suspirei; fechei os olhos e pude contempla-la sorrindo um sorriso que iluminava o mundo! Aah, eu faria qualquer coisa para ter aquele sorriso de volta, só para mim, pode soar egoísta da minha parte, mas eu nunca deixaria ninguém mais vê-lo, pois ele tinha o poder de iluminar os dias mais escuros com facilidade. 
Um sentimento de conforto invadiu o meu interior, a saudade estava me inundando com força e assim, os sentimentos bons trazidos pela lembrança que tive dela se foram sendo substituídos por uma tristeza profunda e uma amargura que mal cabia dentro de mim, ela apertava o meu coração de tal maneira que por um breve momento pensei que iria morrer. 
Algo quente escorre sobre meu rosto, não poderiam ser gotas de chuva, elas eram geladas. Já entendi, eram lágrimas, eu estava chorando! 
“ A culpa é toda sua, você poderia ter insistido mais”, “foi que permitiu que tudo isso iria acontecer “... essas palavras invadiam meus pensamentos me enchendo de culpa. 
Havia muito tempo que eu era perturbado por minha consciência acusadora, tento me livrar deles de muitas formas, mas sempre que paro para descansar, mesmo que seja por um segundo, eles voltam com ainda mais intensidade. 
Eu a conheci quando tínhamos 9 anos, seu nome era Helena, que significa reluzente, igual a ela... estava junto aos meus primos no parque das águas, na Av. Dom Aguirre,268; Sorocaba- SP, jogando basquete na quadrinha que tem ao lado de um tanquinho de areia, era só mais um dia qualquer sem muitas novidades, sem surpresas, quando me distraio do jogo e olho para minha esquerda, lá estava ela me assistindo. 
Vestido azul turquesa, cabelos encaracolados escuros, olhos como azeitonas, pele da cor de toddynho, como ela era LINDA! Me encantei por ela de primeirasua beleza era tão fascinante para mim que, hipnotizado caminhei até ela. Sempre fui um garoto sem vergonha nenhuma, mas ao me aproximar dela, me senti tão envergonhado, o que ela poderia pensar de mim? Será que ela iria gostar de mim? Eu não sabia. Reuni coragem e começamos a conversar, contei a ela sobre alguns dos meus pontos turísticos favoritos da cidade, como a Fazendo Ipanema, Shoppings, Represa Itupararanga, o Zoológico Quinzinho de Barros... pois ela era nova na cidade. Contei também onde eu estudava, no Zillah, que para minha felicidade, encontrei-a lá uma semana depois, estávamos na mesma sala! A partir daí nunca mais nos separamos, juntos passamos pela adolescência, e eu? Eu a amei de todas as forças e maneiras possíveis, mas ela era minha irmã, e eu não queria em hipótese alguma perde-la, como eu era ingênuo.  
Já havia se passaram 11 anos desde a primeira vez que eu a vi, acordei determinado a contar para a Helena tudo que estava engasgado na minha garganta havia anos, para isso, tive que me preparar durante meses, tudo isso para conseguir me declarar para ela, queria que tudo fosse muito especial,por essa razão vesti minha camiseta azul turquesa da sorte, precisava disso mandei, mensagem para ela, pedi que me encontrasse no shopping Cianê as 15hras para assistirmos algum filme juntos, e sai. Quando cheguei no lugar em questão, procurei seu inconfundível rosto, ela estava ainda mais espetacular do que o comum, porém, ela estava com uma cara angustiada. 
O que aconteceu? Foi a primeira coisa que disse quando a alcancei, posterguei a minha declaração/ pedido de namoro, sabia que haveria outras oportunidades, ouvi de sua linda boca as palavras mais difíceis da minha vida: 
Nicolas, o Ericlis me pediu em namoro, e eu acho que vou aceitar, o que acha? 
Eu fiquei sem reação, ignorei completamente o protesto que estava se manifestando dentro de mim e a aconselhei, ela disse que poderia não dar certo e que não era ele a pessoa que ela amava. Ela amava outro. Como um bom amigo, apoiei o relacionamento, mesmo ouvindo-a dizer que se eu a impedisse tudo poderia ser diferente, e eu? Deixei tudo de lado para tentar “priorizar” a felicidade dela, não queria ser o responsável por estragar o futuro relacionamento dela... 
Porque eu não estraguei?! 
Eu a perdi, o namorado era possesivo, me odiava e não aceitava a nossa amizade, fui proibido de me aproximar dela, e eu concordei, não protestei nem nada, sempre posterguei denuncia-lo para a polícia das vezes que ele a espancava, até que em um surto de ciúmes, ele jurou que havia sido traído e a esfaqueou com 4 facadas em seus pontos vitais, quatro era o número da sorte de Helena, ela não suportou esse número e morreu. 
Eu cheguei no hospital, mas ela estava sendo coberta por um saco preto no momento em que pisei na sala. Eu não consegui me despedir da pessoa mais importante para mim. Eu a vi ser espancada e não disse nada, não levantei uma palha para ajudá-la, não a protegi, eu falhei como irmão. Eu via os roxos em seu corpo sempre que nos esbarrávamos, mas fingia que não era comigo, e quando eu pensava em denunciar, postergava, mas nunca cumpria, e agora, ela estava ali, na minha frente, livre, livre de mim, livre do Ericlis, da dor, do sofrimento, ela desapareceu, não por completo, deixou seu diário que me avisaram que estava aos meus cuidados, mas mesmo assim, ela se foi....  
Eu não fiz nada...  
Queria deixar uma coisa bem clara para você que está lendo, não deixe nada para depois, a vida é um sopro, postergar as coisas não adianta nada, você pensa que vai dar tempo de dizer a aquela pessoa o quanto tu a amas, mas ele ou ela pode não estar mais lá na hora H, viva a cada momento de cada vez, seja melhor do que eu fui, valorize as pessoas, você pode acabar igual a mim, um jovem de 21 anos sentado em um banco de cimento no cemitério Pax ,na rua Epitácio Pessoa,240 em Sorocaba, lendo seu diário , a única coisa confiada a mim, chorando enquanto leio as páginas molhadas com suas antigas lágrimas, as palavras que me encheram do mais profundo arrependimento. “ Hoje direi ao Nicolas sobre o Ericlis, se ele insistir eu não fico com o Ericlis, se ele não insistir, é porque não me ama”, “Hoje me esbarrei com o Nicolas  no mercado, eu ainda o amo, eu o olhei no fundo de seus olhos esperando que ele me ajudasse a sair desse inferno, ele me ignorou quando viu que estava acompanhada com o Ericlis, já o Ericlis está sismado que eu o trai com o Nicolas, ele me espancou logo que cheguei, o que eu faço? Nicolas, porque você me deixou?”. 
Eu a deixei... 
                           ...Tudo porque eu havia postergado... 

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